Livro: O Iraque em Foco
 
Título: O Iraque em Foco - Crime, Sangue e Lágrimas 

Autor: Maria Helena Capeto Terenas 

Editor: Al Furqán 

Preço: 1785 Esc. Port. 

Ano Publicação: 1997 

Formato: 15,0x21,0 

Suporte: Livro 

Número de Páginas : 100 

ISBN: 972-8217-39-0

Somos nós, os ocidentais, que gritamos pela liberdade no mundo. De que liberdade falamos? Somos nós, os ocidentais que gritamos pela aplicação da democracia no mundo. De que democracia falamos? A verdade é que atravessamos neste momento a imposição de uma pesada e dura ditadura económica e cultural norte-americana, à escala panetária. 
 
Comentários da Autora (Dezembro de 1997):

Ninguém me contou, eu estive no Iraque e vi com os meus próprios olhos os frutos das nossas mãos e das nossas atitudes. Ninguém me contou. Eu vi. Ninguém me influenciou. Eu vi.

Percorri vários hospitais do Iraque. Mas por mais que pensemos fazer uma ideia do que se passa nos hospitais de um país sujeito a um embargo de tais dimensões, essa ideia fica demasiado longe da realidade. Estamos habituados a ver as coisas na televisão, não a vê-las perante os nossos olhos, nua e cruamente, tal como realmente são.

O que falta? Que carências têm? Tudo. Falta tudo. Têm carências de toda a espécie. Desde os desinfectantes aos medicamentos, dos medicamentos ao equipamento, falta tudo. Papel, lençóis, algodão, cobertores, almofadas, luvas, detergentes... tudo, tudo sem excepção. Só não faltam os médicos e enfermeiros que tentam continuamente realizar milagres com o nada que têm à mão. Vêem morrer nos seus braços centenas de crianças que um simples antibiótico poderia curar. Cólera, tifo, tétanos, hepatite viral, febres, difteria, sarampo, diarreias... Por falta de medicamentos não é possível tratar as doenças cardio-vasculares, urinárias, oftalmológicas, cancerosas...; nem a hipertensão, a diabetes, as úlceras...

Milhares de crianças estão internadas por falta de nutrição. Nunca pensei ver num país rico, como é o caso do Iraque, onde em situação normal nada falta, crianças onde se conhece cada osso do seu corpinho, cada articulação, cobertos apenas pela pele. Crianças que já nem forças têm para chorar. Crianças que já não têm forças sequer para ter fome. Crianças alimentadas apenas pelo amor das suas mães que ali permanecem a seu lado, os grandes olhos tristes que também já não têm lágrimas para chorar. Eu faço parte do mundo que os sujeitou a este atroz sofrimento. Senti uma profunda vergonha e uma culpa ainda mais profunda. Afinal, não deixo de ser uma representação do embargo, uma representação do mundo que os condenou a tão grande horror. Eu também sou mãe e cada um daqueles quadros toca no mais profundo de mim mesma, deixando no meu coração marcas inapagáveis.

Eu vi os recém nascidos a morrer nas pouquíssimas incubadoras que ainda existem. Eu vi-os aos dois e aos três dentro dessas incubadoras que só devem levar uma única criança. Eu vi esses filhos prematuros de mães subalimentadas por não terem dinheiro para comprar os elementos básicos para suprir as suas necessidades mínimas alimentares. Eu vi essas mães que não têm possibilidade de suprir essas carências através de alguns medicamentos pois estes não existem. Eu vi o sofrimento desses prematuros cujo destino certo è a morte porque o Ocidente lhes nega e lhes impede qualquer possibilidade de sobrevivência, porque o Ocidente lhes nega o direito à vida devido a todos por igual. Eu vi essas crianças pequeníssimas, cuja respiração entrecortada e difícil nos faz correr as lágrimas pelo rosto, crianças condenadas à morte já antes de nascerem por um Ocidente que lhes nega o direito à vida, invocando a democracia, os direitos humanos e a liberdade. Mais de um milhão de crianças já morreu devido ao embargo. Morreram pela democracia? Estas crianças morreram e continuam a morrer pelos direitos humanos e pela liberdade? Estas crianças já estão condenadas à morte antes de nascerem pela democracia, direitos humanos e liberdade?

Segundo a ONU, mais de quinhentas mil crianças morreram de fome e de doença no seguimento do embargo imposto ao Iraque. Este número terrível é aproximadamente equivalente ao total acumulado das vítimas dos bombardeamentos atómicos sobre o Japão em 1945, e as da recente limpeza étnica na ex-Jugoslávia.

A verdade é que atravessamos neste momento a imposição de uma pesada e dura ditadura económica e cultural norte-americana, à escala planetária. É neste triste estado de barbárie que o Ocidente "civilizado" pretende construir a ponte para o Terceiro Milénio?

Quando se fala de ditadura e de ditadores, não haverá um erro geográfico crasso na direcção apontada?

Este é o mês em que os cristãos comemoram o Natal. Que Natal? É esta a mensagem que Cristo pregou? O horror a que assistimos é praticado pela consciência cristã, não pela islâmica com que tanto nos querem aterrorizar. Onde estão de facto os terroristas? Onde estão de facto os integristas e fanáticos? Genocídio e Holocausto são as únicas palavras que podem definir este embargo. Mais respeito pelos povos! Eles têm direito à sua legítima soberania e a serem governados por quem muito bem entendem, tal como nós!

Tomar o partido do Iraque não é tomar uma decisão cega, incondicional e irracional, mas procede naturalmente de um conhecimento imposto pela leitura e compreensão da história do mundo contemporâneo e da sua alegada "nova ordem". Ir ao Iraque ver com os nossos próprios olhos, com a mente livre de julgamentos pré-concebidos, o que realmente se passa, aumenta os curtos horizontes com que pretendem balizar o nosso conhecimento pelo desafio que representa às razões impostas por este mundo ocidental que se diz tão desenvolvido e civilizado mas onde a barbárie impera e que é tudo menos razoável.
 

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